domingo, 14 de setembro de 2008

SAÚDE MENTAL E TRÂNSITO

Pesquisas realizadas afirmam que os transtornos mentais causam pouco mais de 1% das mortes e são responsáveis por mais de 12% das incapacitações por doenças em geral e este número cresce para 25% em paises desenvolvidos. As pesquisas revelam também , que das 10 principais causas das incapacitações 5 são transtornos psiquiátricos, sendo a depressão responsável por 13%, o alcoolismo por 7,1 %, o transtorno obsessivo – compulsivo por 2,8 % , a esquizofrenia 4% e o transtorno bipolar por 3,3% ( LOUREIRO, 2000 ).

Um indivíduo com transtorno mental geralmente apresenta alterações nas suas habilidades, que podem interferir no ato de dirigir, aumentando a sua probabilidade em se envolver em acidentes de trânsito.

Segundo PAIM ( 1986 ) a atenção dos indivíduos é uma das habilidades que experimenta alterações em todos os transtornos mentais. Nos estados hipomaníacos o sujeito consegue manter sua atenção em cada objeto por apenas um breve espaço de tempo; na depressão há lentidão e dificuldade de concentrar a atenção e nas neuroses habitualmente, há exaustão da atenção e distraibilidade.

Mesmo sob tratamento medicamentoso o indivíduo com transtorno mental sofre alterações nas habilidades para conduzir veículos , pois os medicamentos muitas vezes, apresentam efeitos colaterais perigosos para o ato de dirigir, como por exemplo: sonolência, dificuldades de concentração, longos tempos de reação, irritabilidade , ansiedade, perturbações esporádicas da memória. Por está razão é de extrema importância que o paciente com transtorno mental e as pessoas responsáveis por este paciente busque o acompanhamento de um médico qualificado a fim de observar, monitorizar de perto o surgimento dos efeitos colaterais e fazer os ajustes para que os efeitos adversos sejam instituídos logo que possível.

Na avaliação psicológica para obtenção da permissão para dirigir , existe um consenso nas opiniões de profissionais e pesquisadores da área, sobre a necessidade de se investigar as características de personalidade do motorista acidentógeno, através de instrumentos psicológicos padronizados ( testes ) , procurando detectar os transtornos e sua propensão a acidentes.Quanto mais informação se tem sobre o motorista, como o conhecimento de traços de personalidade, mais possibilidades se terá de tomar providências para prevenir o alto índice de acidentes de trânsito.

Podemos observar uma carência de estudos e pesquisas, que aborde a questão das conseqüências que um indivíduo com transtornos mentais pode trazer para o trânsito. O artigo, “Transtorno de personalidade e propensão a acidentes de tráfego”, publicado pela Associação Brasileira de Acidentes e Medicina de Tráfego ( ABRAMET, 1999 ), junto com alguns exemplos de comportamento citado por BARLOW (1999), abordam e fornecem uma visão voltada para o assunto.

Vamos a eles:

. Personalidade Ansiosa ( Esquiva ) : situações agorafóbicas típicas incluem viajar de carro. A agorafobia leve é exemplificada pela pessoa que hesita em dirigir sozinha por longos percursos, mas consegue dirigir, por exemplo, ao trabalho. A agorafobia moderada é demonstrada pela pessoa que dirige dentro de um raio de pouco mais de 8 quilômetros de casa, mas somente acompanhada. O indivíduo pode ter medo de ficar tão ansioso enquanto está dirigindo e, nessa ocasião, de perder o controle da direção, sair da estrada e morrer, pois os sintomas de inquietação ou sensação de estar com os nervos à flor da pele, a dificuldade em concentrar-se ou sensações de “branco” na mente, irritabilidade, podem afetar o ato de dirigir , levando-o a propensão de acidentes.

. Transtorno de Personalidade Obsessivo-compulsivo: pode ser o que provoca menor comprometimento, já que o perfeccionismo, atenção a detalhes e perseverança, podem ser traços bastante desejáveis, principalmente na esfera profissional; mas no trânsito estas pessoas são as vítimas naturais dos causadores de acidentes. Escrupulosas e cautelosas, seguem a lei rigorosamente, prejudicando e atrapalhando os apressados, “furadores de fila”, velocistas e imprudentes de modo geral. Podem estar à frente de engavetamentos e em meio a colisões em semáforos ( já pára no amarelo... ), neblinas e em situações de fluxo alto e rápido, grandes marginais, por exemplo. Muitos obsessivo-compulsivos tem medo de que algo terrível aconteça, se eles não conseguirem executar seus rituais. Alguns temem em matar alguém enquanto dirigem, levando-o muitas vezes a frear repentinamente enquanto dirigem, por medo de ter atropelado um pedestre.

. Personalidade Dissocial: anti-sociais e egoístas, não hesitam em tirar ou levar vantagens sobre quem quer que seja. Interessados em alguém ou alguma coisa, não medem as conseqüências para obter o que lhes interessam. Em “ação”, não respeitam sinalização, locais de estacionamento, semáforos, conversões proibidas, pedestres. O acidente típico é a fuga desastrada quando perseguidos.

. Transtorno da Personalidade com Instabilidade Emocional: tendem a ser impulsivos, violentos e imprevisíveis, dirigem conforme o momento emocional. Distraídos, calculam mal as distâncias e obstáculos; abusam dos veículos e pedestres. São pessoas perigosas no trânsito, porque súbita e abruptamente, fazem manobras arriscadas em velocidade impróprias e provocam pequenas e grandes colisões. Abusam, muitas vezes, de substâncias, sob a influência de álcool ou drogas conduzem de forma imprudentes , adotando muitas vezes um comportamento auto-destrutivo.

. Personalidade Histriônica: apresentam baixos limiares de tolerância à tensão e à frustração. Sob pressão excessiva ( como no trânsito ) perdem o autocontrole, a coordenação motora e a orientação tempo-espacial. Como freqüentemente expressão a emoção com exageros inadequados, podem expressar sua raiva como fúria intensa, levando a situações de riscos, como aquelas em que o motorista, acompanhante, passageiro ou pedestre brigam entre si, dentro e fora dos veículos.


PRESA ( 2002 ) diz que não podemos aconselhar que todos os motoristas devam fazer psicoterapia, porém devemos alertar que a saúde mental do motorista deve ser cuidada no sentido de auto-conhecimento acerca de seus sentimentos de irritação, raiva, fúria, etc., diminuindo assim os elevados números de mortos e feridos no trânsito.

A formação de pesquisadores nas universidades é um dos caminhos mais rápido para a evolução e geração de conhecimento e prevenção dessa epidemia de acidentes no trânsito ; quando detectados estes indivíduos, antes da autorização para dirigir ou depois , deveriam ser encaminhados para uma orientação, para algum atendimento ( grupos de reeducação, acompanhamentos psicológicos ou outras alternativas criadas pelo órgão responsável em parceria com Universidades ). Isto, seria de grande importância para diminuição dos problemas de violência no trânsito.

· Psicóloga Perita em Trânsito – PUC/PR

Cassemira Maia Kopycki

2 comentários:

Elba disse...

Olá Cassemira, achei muito interessante seu artigo, mas gostaria de ter acesso à referência bibliográfica.Obrigada

PROFESSOR disse...

Gostei muito do artigo. Peço sua autorização para reproduzí-lo em forma de apostila, dando os créditos a ti, é claro. Aguardo sua resposta. Obrigado.